Despedido com rosas

Junho 25, 2008

Despedido com rosas…

O ano lectivo da Escola de Música da Banda dos Bombeiros Voluntários de Esposende teve para mim um final muito peculiar, o que motivou a minha reflexão e partilha neste espaço. O último dia de aulas é marcado nesta escola por uma audição final onde participam as várias classes em agrupamentos de música de câmara e pela participação solista dos alunos finalistas, acompanhados pela orquestra da escola! Até aqui nada de novo em relação ao ano transacto. No entanto, ao longo do dia (mais precisamente depois de ter conversado com os meus alunos da parte da manhã e de ter feito um balanço do ano que terminava, numa perspectiva de continuidade e na expectativa de que o próximo fosse ainda melhor) fui informado da dispensa das minhas funções. Esta foi a forma que a direcção encontrou para “segurar” alguns músicos da Banda de Música que “até já estão em escolas superiores!” e começam a ter propostas de outras Bandas. Assim, a referida direcção resolveu demitir ou suavizando a questão, dispensar três actuais professores para “brindar” três músicos da Banda com um novo cargo. Resumidamente, “vamos apostar na gente da terra e dispensar os de fora!!!!”. Perguntam-me se compreendo? Sim, compreendo. Mas soa-me a provincianismo e a “pensamentos pequeninos”. Segundo esta mentalidade, um músico de Esposende nunca poderá tocar na Orquestra Sinfónica Portuguesa (sedeada em Lisboa). Primeiro os da terra senhores directores? Não! Primeiro os competentes e bem formados. Na verdade, “todos” gostam de igualdade quando lhes convém…

Há um mês atrás, reparei na abundância de um ambiente de desconcentração e desânimo entre os meus alunos, que vinha a prejudicar o desempenho nas aulas. Não foram poucas as vezes em que questionei os meus alunos e a mim próprio sobre quais as causas deste estado! Eis que no Sábado tive a resposta: Parece que a notícia da “dispensa dos professores” já circulava nos corredores e chegou aos ouvidos dos meus alunos bem antes de eu próprio ser informado!…Os alunos tinham razão para andarem pelo menos confusos. Entretanto, reuni a classe para lhes dar a notícia oficial. Criou-se um ambiente de tristeza e o desabafo e reflexão prevaleceram…Chegou o momento da audição. O ensemble de flautas iniciou a sua actuação com a peça “Humoreske” de Dvorak, antecipando e de certa forma premeditando o momento que se seguiu e que dando titulo a este artigo, tem o seu quê de humorístico. No final da audição e durante as cerimónias de encerramento do ano lectivo, o Senhor Presidente decidiu chamar ao palco os três músicos dispensados e agradecer o seu trabalho com a oferta de um ramo de rosas. Foi então que comentei: “Nunca fui despedido com rosas…”. Talvez a intenção fosse mesmo agradecer ou amenizar os ânimos exaltados pela “sua” própria decisão, mas apenas provocou em mim um sorriso constrangido do qual pretendo tirar uma lição. Dizia o Senhor Presidente: “A vida é assim mesmo!”… E eu digo: Não, a vida não deve ser assim. Ou cada um de nós não espera continuar o seu trabalho quando este é positivo? 

Não pedi a ninguém para ser professor desta escola e não conhecia pessoalmente a maior parte dos professores, inclusive o professor que me deu a oportunidade de desempenhar este trabalho. Pelo que sei, esta oportunidade surgiu porque alguém deu a minha referência tendo em conta o meu desempenho noutra escola. Desde então, abracei o projecto com dedicação e profissionalismo, nunca o subestimando em relação a escolas oficiais onde lecciono. Pelo contrário, coloquei sempre a fasquia o mais alto possível, nunca abdicando da partilha da minha experiência e vivência musical, no sentido de alargar os horizontes dos meus alunos e contribuir para a evolução da escola. Resta-me a consciência do dever cumprido, das experiências partilhadas e do companheirismo sedimentado durante dois anos. Estou tranquilo porque acredito que o tempo separa o trigo do joio e no final desse tempo, espero estar do lado certo. Um “bem haja” a todos os professores com quem trabalhei e um forte abraço para os meus alunos.

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Uma resposta to “Despedido com rosas”

  1. João Martins said

    Prof.Marco Pereira. Felicito-o pelo seu excelente blog e, pela qualidade dos temas que publica, muito bem seleccionados e escritos. Mais especificamente e, em relação ao texto ” Despedido com Rosas”, quando olhei o título cheguei a pensar que seria a análise de algum livro, mas logo verifiquei (após de uma leitura diagonal ao conteúdo),que se tratava de uma irónica mas infeliz realidade.
    Essa irónica e infeliz realidade, em que os mais competentes são avaliados pelos outros, os incompetentes, esses outros que ainda continuam a tomar decisões envoltas no maior egocentrismo e não menos provincianismo, apesar do enorme investimento que tem sido feito na educação e na qualificação dos seus intervenientes.
    Muito oportuno e intemporal este seu manifesto.

    Atenciosamente
    João Martins

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